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Ler deveria ser proibido

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Você ouviu falar que dá para viajar de livro e viver grandes aventuras no tempo, no espaço, na cabeça e no coração das pessoas? Esqueça. Livro custa caro. Além do mais, exige entrega e concentração. Muito trabalhoso. Ler deveria ser proibido.

Quer viajar? Simples. Mande revisar o seu carro ou compre uma passagem de ônibus. Pode também optar por pagar os olhos da cara e ir de avião ao seu destino, já ciente de que, se tudo der certo, você tem garantidas muitas horas de espera, vai correr uma maratona em táxis e hotéis, vai suar carregando as malas… Aliás, pensando bem, burrico, elefante, carroça, trem, caminhão, entre outros, também costumam transportar as pessoas de um lugar ao outro. Sem falar nas suas próprias pernas, inclusive sobre bicicletas ou patins. Deixe de frescuras. Escolha o seu meio de transporte e boa viagem.

Se o que você quer é viajar para o passado, tem ótimas opções: ir ao cinema, visitar um museu ou torcer para que inventem logo a máquina do tempo. Idem se o seu interesse estiver no futuro. Não desanime. Se bem que, com a proibição da leitura, não há como fazer filmes. Nem o teatro conseguirá existir, porque lhes faltarão os textos. O passado não poderá ser resgatado – vão queimar os livros.

Ainda bem que você tem coragem de viver grandes amores, de se entregar, de abrir o coração. Sabe o que falar e fazer, tem desenvoltura no assunto, porque, quando a leitura for proibida, você terá de contar com os próprios recursos para conquistar um amor. Não vai ser fácil, mas eu lhe desejo boa sorte.

Ler deveria mesmo ser proibido! Se você quiser bater um bom papo com alguém interessante e inteligente, por exemplo, jamais pegue um livro. Os autores só pensam extravagâncias e o papel aceita tudo.

Os livros são nocivos. Exercem uma péssima influência nas pessoas. Têm a ousadia de transmitir ideias – e quem não sabe que as ideias são mais perigosas do que os fuzis? Aliás, é sempre por causa delas que as pessoas pegam nos fuzis…

A leitura é capaz de levar à loucura. Pode deixar uma pessoa inconformada com o mundo em que vive e sugerir-lhe até mesmo que ela é capaz de mudá-lo. Pior ainda: em vez de se resignar, concentrando-se em viver a parte que lhe é entregue pela vida, mansamente, sem fazer força, deixando-se levar pela correnteza… Ai, pasme! Pode induzir a pessoa a acreditar que ela tem um poder tão grande que é capaz de transformar a si mesma e até mesmo de conseguir tudo o que quer!

Mas isso não é nada!

Ler deveria ser proibido porque tem gente que busca consolo nos livros, se identifica com os personagens, vivencia as suas angústias e acaba encontrando dicas e soluções para as suas próprias angústias, em vez de curtir a deliciosa ignorância como convém a qualquer ser humano que se preze. A pobre criatura será impedida de morrer feliz, com todas as suas certezas bem guardadas e nunca poderá bater no peito e dizer com força: “É assim que é certo fazer!”

Ler deveria ser proibido!

Dizem que estimula a imaginação. Ora, para que ter imaginação? Ela só serve para deixar o indivíduo confuso, sem saber distinguir a realidade da fantasia.

E ter fantasias, então? Um claríssimo desrespeito à ordem natural das coisas. Aproveitemos para abolir também a criatividade da vida das pessoas decentes! Nada de modernismos, de inventos revolucionários. Viva a mesmice!

Ler deveria ser proibido!

Imagine que tem gente capaz de afirmar que, antes de se realizar, todo desejo foi um sonho. Não contentes, ainda asseguram que primeiro precisamos sonhar. Nada mais falso. Só serve mesmo para dar validade àqueles momentos perdidos em longos e horríveis devaneios tão comuns a crianças e jovens.

Que absurdo! Quer coisa mais inútil do que sonhar? Construir castelos no ar, imaginar que se é belo (a), famoso(a), rico(a), a pessoa mais feliz do mundo, que é possível ter-se tudo da vida? Mesmo porque eu só conheço um jeito de se ter as coisas: trabalhando. E duro. Nada de se divertir pelo caminho. O tempo não espera e é preciso poupar cada segundo. Não desperdice o seu, sonhando com coisas que jamais acontecerão. Isso faz um mal danado!

Falando no tempo, é por causa dele que, definitivamente, ler deveria ser proibido!

Onde já se viu “matar o tempo” com um livro na mão, quando há tanto o que fazer? Abaixo o lazer! Diga não ao prazer! Carregue pedras de um lugar para o outro, mas jamais caia na tentação de sentar-se em um canto sossegado qualquer e mergulhar em grandes e inúteis aventuras, pois isso não faz sentido. A ordem é fazer coisas produtivas e coerentes. Os resultados logo aparecerão: você vai ficar louquinho(a) da silva e terá a permissão social para chamar a sua escova de dentes de Totó…

Você está pensando que acabou, aposto! Mas ainda tem algo pior: a curiosidade!

Ler deveria ser proibido, porque as pessoas que têm este péssimo hábito costumam se interessar pelos assuntos mais espatafúrdios e deles extrair perniciosos conhecimentos. Na nossa sociedade, a informação é (muito) mais importante do que o conhecimento – isso qualquer criança já aprendeu. O motivo é fácil de compreender: o conhecimento é para sempre e a informação é descartável. Ela mesma se encarrega de ser substituída pela próxima. Enquanto isso, a curiosidade vai levando os mortais ao vale das lágrimas. Sua maldade é tão grande que nem eles mesmos percebem que estão se afundando cada vez no pântano negro onde as ideias se reciclam. Seu poder de sedução é tão forte que os pobres mortais vão caminhando sorridentes em direção às descobertas – e à sua própria perdição.

Isso que eu nem falei ainda dos malefícios que os livros trazem, quando colocam ordem no caos do mundo ou dão sentido para a vida das pessoas, nem na maneira devastadora que abrem essas pobres vidas para as experiências dos outros, permitindo que troquem vivências, comunicando sentimentos e emoções, aprendendo a compreender e aceitar o seu semelhante…

Ler deveria ser proibido!

Quer coisa pior para uma sociedade organizada do que pessoas que conseguem desenvolver um senso crítico capaz de orientá-las nas suas escolhas? Para que escolher, se a mídia há muito elegeu o melhor para você? Todo mundo aceita, concorda e agradece. Pode todo mundo estar errado? Nada de pensar, seu burro! Seja doce como um cordeirinho, que é melhor.

Mas você nunca será obediente enquanto a leitura estiver liberada. Por isso, repito: o livro deveria ser proibido!

Não leia nada! Jamais se deixe flagrar cometendo o delito de ter um livro nas mãos, para não dar mau exemplo – todo mundo sabe que a imitação é a base do aprendizado. Não se engaje em projeto algum, porque dá muito trabalho!

Diga não à rebeldia, diga não à independência, diga não à autonomia. Diga não a tudo que for belo e novo – exceto, é claro, ao que foi por outras pessoas previamente selecionado para fazer você feliz!

Para encerrar as recomendações: se, por acaso, você tiver filhos ou alunos entrando na adolescência, convém indicar os últimos exemplares de livros do mundo com a seguinte recomendação: “É expressamente proibida a leitura desses livros, porque eles não são adequados para a sua idade.”

O efeito será devastador, acredite-me! E, se eu ainda estiver viva, por favor, conte-me o que aconteceu. Aposto meu pescoço (se ainda o tiver), que correremos o risco de começar tudo de novo!

Por: Regina Drummond

Regina Drummond

Regina Drummond

Regina Drummond é brasileira e mora em Munique. Autora de mais de 100 livros, principalmente para crianças e jovens, é tradutora de alemão, inglês e francês, contadora de histórias e palestrante internacional. Já ganhou alguns prêmios e destaques, além de ter tido obras traduzidas para outros idiomas. Confira no site: www.reginadrummond.com.br

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